13/01/2015

e Sexo depois de um aborto?



Recebi um comentário anónimo neste post, pediram-me que escrevesse sobre “Sexo depois de um aborto”, ainda estive uns dias a pensar sobre se conseguia escrever sobre este assunto, este que considero ser um assunto menos consensual do que “Sexo depois da maternidade” é um assunto que considero igualmente pessoal, intimo, delicado e com alguma complexidade sentimental, não há bebé, não há amamentação, não há pontos, não há todo um novo mundo que preenche a mulher que se torna mãe, há silêncio, lágrimas, tristeza, raiva, frustração, revolta, um vazio, um sentimento de perda, senti-me diminuída, culpada, senti que falhei enquanto mulher, olhava para as mães, para as grávidas e questionava porque eu? Porque comigo? Porque?

Não sei se quem fez este pedido sabe um bocadinho da minha história, mas, infelizmente, tenho legitimidade para o escrever, antes da M. sofri dois abortos retidos, foram os maiores socos no estomago que levei na vida, lembro-me bem como foi, o que senti, o silêncio de um coração que não bate, a expectativa frustrada, o vazio, no peito, na cabeça, no ventre, entre nós os dois que olhávamos um para o outro sem saber o que dizer, os olhos dele que olhavam para mim com pena, a firmeza dele em proteger-me e engolir o seu próprio sofrimento, o abraço dele que naqueles momentos me abrigavam em pleno, ainda assim sentia-me sozinha e achava que nem ele nem ninguém compreendia o que eu estava a sentir.

Da primeira vez tive medo, muito medo, o meu corpo não expelia aquele feto que teimava em continuar dentro de mim como que: não quero sair deste que é o meu lugar! o que me obrigou a ter que entrar num bloco  de partos, eu de um lado com os olhos cheios de lágrimas de medo e tristeza do outro lado uma mãe com os olhos cheios de lágrimas de alegria com um filho nos braços.

Na segunda vez, as mesmas personagens, o mesmo guião, o filme repetia-se, desta vez sabia bem ao que ia, já não tinha medo só tristeza e uma certeza momentânea: Não queria voltar a engravidar, não queria mais aquilo que me fazia mal e me estava a destruir por dentro.

O facto de ter sido submetida a duas curetagens obrigava-nos a uma abstinência sexual de 3 meses, 3 meses que eu contava religiosamente para começarmos outra vez a tentar.

Não havia medos nem receios, retomar a minha vida sexual era natural e quase necessário, eu queria mesmo engravidar e sabia que remávamos os dois na mesma direcção, nunca tive dificuldade na entrega, nunca senti que o meu corpo tivesse sido dilacerado, assumi que a natureza sabia o que fazia e deixei as coisas fluírem com naturalidade e assim foi assim das duas vezes.

Mesmo com poucas semanas de gravidez perder um bebe é devastador, tudo necessita de sarar: o corpo, o espírito, a cabeça, até o casal em si precisa de recuperar-se emocionalmente e arrumar ideias, usei sempre o tempo a meu favor para conseguir um novo começo, nunca desisti do que queria, os abortos em nada abalaram a minha vida sexual, após cada perda estive sempre pronta e preparada para engravidar outra vez.

Mas nem sempre é assim, há mulheres com medos e receios, que sentem realmente que o seu corpo foi dilacerado, torturado, flagelado, rasgado, maltratado, que não se entregam, que não se julgam à altura, e se culpam pelo que aconteceu, sentimento de impotência, que leva ao isolamento e ao silêncio, a exaustão psicológica e as perdas de sangue apoderam-se  o que poderá ser causador de não se estar preparada para retomar a vida sexual, há quem não esteja pronta a engravidar de novo vivendo com um eterno medo e receio de que tudo possa voltar a acontecer, há quem não consiga ver solução numa nova gravidez.

Para mim o truque foi nunca desistir, seguir sempre em frente e lutar por aquilo que queria – um filho – e sexo era a palavra de ordem para o conseguir ter. 

Um bj Querida Anónima!

21 comentários:

  1. Obrigada pelo seu post.
    Foi muito amável da sua parte ter usado o seu preciso tempo a falar de um assunto que lhe poderá trazer más memórias e ainda por cima a pedido de uma anónima.
    Sinto as suas palavras como se estivéssemos recostadas num confortável sofá com uma chávena de chá quentinha entre mãos. Como uma conversa de amigas.
    Não sabia da sua história e espero que este post não lhe tenha trazido más memórias.
    Eu não desisti. Custa. Custa muito. O primeiro custa, o segundo custa ainda mais. Como muito bem diz, já sabemos o que perdemos e o que vem aí... e o que vem não é bom. Não mesmo.
    Vale a pena continuar? Sim, sem dúvida. Desistir? Só se o médico assim o indicar. Até lá o lema de vida é aproveitar o que tenho e continuar a tentar.
    Um beijinho muito grande e muito obrigada pela sua partilha.
    A "Querida" Anónima :)

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  2. Assim como vcs duas eu tb sofri um aborto e foi tão dificil. Dificil mas superavél e prova disso é q cá estamos e continuamos a viver. Só depois de ter perdido o meu primeiro feto é q percebi que muitas mulheres passam pelo mesmo. É muito mau. Parabéns mulheres corajosas!

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  3. Assim como vcs duas eu tb sofri um aborto e foi tão dificil. Dificil mas superavél e prova disso é q cá estamos e continuamos a viver. Só depois de ter perdido o meu primeiro feto é q percebi que muitas mulheres passam pelo mesmo. É muito mau. Parabéns mulheres corajosas!

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  4. Antes de mais, parabéns pelo texto... e pela coragem de trazer "à baila" este tema: descurado por uns e ignorado por outros.
    Eu já passei por 4 abortos... e a minha vida sexual a partir do 3º mudou radicalmente... O 1º e o 2º foram provocados com cytotec em casa, o 3º e o 4º foi no hospital. Talvez por haver tanta gente a mexer, eu tenha tentado "separar-me" dessa parte do meu corpo.
    Eu tenho aversão ao sexo. Engravidei a 4ª vez, claro que fiz sexo... mas com muito sacrifício e só para atingir a gravidez! Não vou desistir, mas se pudesse passava ao lado do sexo!
    Decidi deixar o meu testemunho, porque acredito haverem mais mulheres que se encontram nesta situação.
    Amo o meu amor, e sofremos os 2 com esta situação (sexo). Ele tem sido sempre impecável, paciente e muitooo respeitador, mas confessa ter "saudades" de como era antes... e eu também...
    e antes de outros comentários, sim, já procurei ajuda! tenho esperança que a coisa melhore :)

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    1. Obrigada pelo seu testemunho, aposto que serão importantes.
      Um grande bj <3

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  5. Parabéns pelo texto. Além de bem escrito passa exatamente aquilo que sentimos após um aborto. O sentimento de culpa, o sentimento de impotência que só o abraço "dele" consegue alterar.
    Perdi um filho à pouco mais de 1 ano.
    Estive 3 meses sem sexo, apesar da médica ter aconselhado 4, talvez pela minha idade, eu não sei (porque nada no meu aborto teve explicação nem me explicaram nada). Mas não me custou nada, porque eu não queria. Queria a companhia "dele", a compreensão "dele" e os mimos "dele", mas nada mais. A fim dos 3 primeiros meses isso mudou. E ainda bem.

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    1. Acabei de passar por isso. Sai do ultrassom a poucas horas. A frase que. diz "o silencio do coracao que nao bate" achei perfeita para a situacao. Todos os pais vao ha um ultrassom na.esperanca de ouvir o.pequeno coracao e saem devastados.quando nao.escutam.
      No meu caso, entendo meu aborto como uma malformacao cromossomica e agradeco a esta. Quero mais.do.que.tudo no mundo ser mae, mas nao quero trazer um anjo a esse mundo so.para sofrer.
      A vida ja eh dificil por si so e com problemas de saude, torna-se ainda mais dificil.
      Nao.sou religiosa, porem acredito em Deus e acho realmente que.Deus.sabe. o que faz, nada acontece por acaso.
      Meu marido sempre esteve comigo, a cada sonho, a cada consulta e.ultrassom e esta comigo na.dor.tambem.
      Acho.que o.retorno a vida sexual e de acordo.com.o.sentimento de cada uma.
      Caso nao tenhamos.provocado e tenhamos vivido normalmente nao temos.nenhuma culpa no.aborto, o melhor para se recuperar e se apegar no.amor.que.se.tem ao.parceiro (a) e ter força para recomeçar sempre que.necessario.
      Doi muito, mas ainda assim acho que Deus sabe.o.que faz.

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  6. Boa tarde,
    Antes de mais parabéns pelo blog, acompanho há algum tempo e sou leitora assídua.
    Sofri recentemente o meu segundo aborto retido (gravidez não evolutiva), ainda não temos filhos. Têm sido períodos de muita dor e sofrimento, eu achava que 2014 tinha sido o pior ano da minha vida, mas parece que 2015 não está a ser muito meigo comigo. Obviamente que emocionalmente me sinto desolada, culpada e frustrada enquanto mulher, o facto de não conseguir gerar um filho nos deixa marcas físicas e emocionais que perduram.... Tenho esperança que a nossa "sorte" mude, mas..... O que gostaria de perguntar, uma vez que sei que passou pela mesma situação, é se após o segundo aborto fez algum estudo, se procurou conselho com algum médico ligado à infertilidade. Ou simplesmente voltou a tentar a sorte? Obrigada pelo depoimento e parabéns pela sua maravilhosa família.

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    1. Querida Leitora,
      Antes de mais, muito obrigada por me ler, muito obrigada pela sua assiduidade.
      Entendo a sua dor, e posso dizer-lhe que o tempo vai dando alguma ajuda.
      Após o segundo aborto, tive uma conversa com a minha médica e expliquei-lhe que não queria voltar a tentar a minha sorte sem fazer alguns exames de forma a tentar perceber se haveria alguma causa para os abortos.
      Na altura eu e o A. fizemos um estudo genético (exame dos cariotipos) e eu fiz vários exames de sangue.
      Num desses exames de sangue foi-me detectada uma pequena trombofilia que pode ter sido a causa dos abortos.
      Talvez seja prematura pensar em recorrer a um médico ligado à infertiliddade, lembro-me que na altura um médico me disse: Consegue o mais difícil, consegue engravidar! E nunca mais me esqueci destas palavras!
      Desejo-lhe que corra tudo da melhor maneira e que em breve me dê boas noticias.
      O que precisar, estou aqui!
      Um grande bj
      <3
      P.s. Não desista!

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  7. Os medicos sao na sua grande maioria muito frios e esquecem.que estao lidando com um ser humano. Eles nos tratam como "mais um caso", sendo que para nos, eh um sonho destruido (mesmo que temporariamente).
    Muito triste essa visao fria dos medicos.

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  8. Faço minhas suas palavras! Me emocionei com o texto, pois retratou tudo o que vivi e senti até hoje. Mas o que Deus quis é o que prevaleceu. Então cabe a nós seguir o que está escrito, e tentar... Tentar... Tentar, até chegar a hora de conseguir!!! bjs lindas! Deus abençoe!

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  9. Faço minhas suas palavras! Me emocionei com o texto, pois retratou tudo o que vivi e senti até hoje. Mas o que Deus quis é o que prevaleceu. Então cabe a nós seguir o que está escrito, e tentar... Tentar... Tentar, até chegar a hora de conseguir!!! bjs lindas! Deus abençoe!

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  10. E´´E um vazio que só o tempo nos encoraja. é um luto que Deus está ao nosso lado não tenhamos duvida do olhar de Deus sobre nós. Passei por essa perda fazem exatos tres semanas .Mas é a certeza de algo maior que é Deus o unico que é capaz de conceber a vida .Eu estava de 3 meses e o coracaozinho parou. tenho uma menina linda de 7 anos sejamos fortes ainda mais fortes um beijo no coração de todas voceis.

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  11. Olha trombofilia causa aborto, tem que usar medicações durante toda gestação .

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  12. Olá meninas, estou me recuperando de um aborto espontâneo e realmente não é fácil.Eu ficava o tempo todo tentando entender o que tinha acontecido,mas minha médica disse que era normal, ou seja, não tive uma explicação satisfatório. Tentei enganar meu coração no início achando que não me apegaria tanto a essa ideia de ser mãe, mas não podemos enganar o coração,e quando vi toda expectativa jogada ao vento, fui invadida por uma tristeza e sensação de ter sido enganada pelo meu próprio corpo que até então estava indo tudo muito bem. Não conseguia encarar meu pai quando voltei do hospital, ele que tanto deseja ser avô. Retornar pra vida é difícil por ter que explicar pra todos que não foi dessa vez. O medo é grande agora , tenho 35 anos,pouco tempo caso queira,mas preciso de mais tempo pra tomar coragem. Infelizmente somos julgadas bem nesse momento tão doloroso pelos médicos,onde me questionaram se havia tomado alguma coisa pra perder!!! São tão insensíveis que mesmo vendo que eu estava em prantos não se tocaram , me deram a notícia de cara, é isso me marcou demais. Espero poder dar essa alegria a minha família um dia,mas preciso me reestruturar emocionalmente primeiro.

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  13. Nunca havia lido algo que falasse tudo que eu sentia, muitas vezes comentava mas ninguém entendia, sofri dois abortos, como foi triste e dolorido

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  14. Oi meninas noa noite hj estou aq vivendo meu segundo aborto tive meu primeiro à 5 meses atrás e um agr,não ta sendo fácil passar por tudo isso novamente em tao pouco tempo,mais não vou desistir,o médico pediu pra mim investigar o caso,agr é esperar e entregar nas maos de deus

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  15. Passei por 3 abortos 1 foi espontâneo. No último usei aborto químico e minha sexualidade voltou 2 dias depois com toda força. Fiquei surpresa mas como eu na gravidez tenho enjôo e mal estar incapacitantes​ imagino que ao não estar mais com todo aquele mal estar me senti bem. Eu e meu marido fizemos sexo anal e foi maravilhoso para ambos, como se fosse uma terapia. Nós nos sentimos mais unidos e nos fez bem. Ajudou muito na minha recuperação emocional e psicológica. Estou me preparando para a laqueadura e meu marido fará a vasectomia. Não queremos mais passar por esse tipo de experiência.

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